Páginas

8/19/2007

Os pontos negativos e OS positivos do novo acordo entre países lusófonos

Os pontos negativos e OS positivos do novo acordo entre países lusófonos

Os pontos negativos e OS positivos do novo acordo entre países lusófonos
(Aldo Bizzocchi, doutor em Lingüística pela USP)

Ortografia é assunto que sempre causa frisson. Provavelmente porque muitos vêem na grafia das palavras um patrimônio nacional, comparável ao hino e à bandeira.
Mudanças constantes de moeda, constituição, regime de governo, denominação do país, e também de ortografia, produzem na população um sentimento de instabilidade e baixa auto-estima. O português já passou por várias reformas ortográficas (ver Língua 11), e mais uma se anuncia em 2009. A reforma ocorrerá porque três países - Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe - ratificaram o acordo ortográfico firmado em 1990.
O argumento em favor DA unificação é o de que o português é a 3ª língua européia mais falada no mundo, depois do inglês e do espanhol, e a existência de duas ortografias atrapalha sua difusão internacional. O filólogo Antônio Houaiss afirmava que o português é a única do Ocidente com mais de 50 milhões de falantes a ter duas grafias oficiais.
O argumento é falso. Difícil acreditar que o acadêmico, exímio tradutor de Joyce, ignorasse que o inglês tem duas ortografias, a britânica e a Americana, e mesmo assim é a mais difundida. A difusão de um idioma depende do prestígio e do poder político, econômico e cultural dos países que o falam, e não DA grafia. Senão, o chinês, com escrita complicadíssima, não estaria cada vez mais conhecido no mundo.

Prós e contras

O novo sistema ortográfico tem pontos positivos. Em Portugal desaparecem o c e o p mudos, como em "acção", "acto", "adopção", "baptismo", "óptimo" e "Egipto" (mas mantém-se em "facto", por ser pronunciado). Também OS encontros vocálicos ee e oo de "vêem" e "enjôo" perderão o circunflexo.
Entretanto, há muitos pontos negativos. Como a supressão total do trema. Sem ele, como diferenciar "eqüino" (cavalo) de "equino" (ouriço-do-mar)? E como saber a pronúncia de palavras pouco usuais, como "qüididade"? É de se imaginar a confusão quando OS livros escolares disserem que OS equinos são invertebrados, e as crianças pensarem em pangarés desossados!
A nova norma fará com que OS portugueses escrevam "húmido" como "úmido". Só que "húmido" ("úmido") é DA mesma etimologia de "humor", o latim humus, com h. Se em Portugal ainda havia coerência ortográfica na palavra, agora desaparecerá. Melhor mesmo seria eliminar de vez o h mudo e pronto.
Também se simplifica o uso do hífen, o que é bom. Só que, ao mesmo tempo em que se elimina o hífen de "anti-semita" (antissemita), ele é introduzido em "microondas" (micro-ondas).
O mais absurdo DA reforma é que deixará de ser usado o acento para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição), bem como o de "pêlo" (substantivo) e "pelo" (preposição + artigo). O título Uma pistola para Jeca, do filme de Mazzaroppi, poderá ser interpretado como "uma pistola cabe (ou é oferecida) a Jeca" (sentido real do título) ou "uma pistola detém Jeca". E quem vai entender o trocadilho no título do livro Pelos pêlos, de Ana Cristina César?

O que faltou

O projeto não toca em incoerências ortográficas: o já mencionado h mudo; s, ss, c, ç, SC, sç, x, xc e z com som de /ss/; s, z e x com som de /z/; x e ch com som de /ch/; g e j com som de /j/; "estender" x "extensão", "destro" x "dextrose", "texto" (do latim textus) x "misto" (do latim mixtus), "em cima" x "embaixo", etc.
Uma reforma simplificadora é necessária, mas a que está em curso é um Frankenstein lingüístico, produto de negociações políticas entre OS países. O resultado, como na política, foi um projeto desfigurado, em que se eliminaram coisas boas e se manteve muito do que havia de ruim.
Em vez de uma reforma radical e definitiva, como fizeram outras línguas, as doses homeopáticas no português obrigam a que a cada 50 anos seja feita nova reforma. Por sinal, avanços já previstos na proposta de 1907 ainda não foram postos em prática, como a solução das grafias duplas x/ch, g/j, etc. É notável que línguas como italiano, galego e catalão já tenham encontrado soluções para tais casos. O português poderia inspirar-se neles. O italiano e o romeno, por sinal, são as línguas românicas com sistemas ortográficos mais simples e coerentes. E a grafia do italiano não sofre alterações significativas desde o século 16, o que não deixa de ser invejável.

O exemplo inglês

O inglês possui duas ortografias, mas bem poderia ter uma só. Afinal, organise e organize, humour e humor, e assim por diante, não representam pronúncias diferentes. Já "António" e "Antônio", "facto" e "fato" indicam diferenças fonológicas inconciliáveis, tanto que ambos são mantidos na reforma.
As diferenças entre o inglês britânico e americano afetam ligeiramente a ortografia e o léxico: a diferença marcante está na pronúncia. Mas o inglês possui uma só gramática. Em qualquer país de língua inglesa, a sintaxe é uma só. Ao contrário, o português não tem só duas pronúncias e duas ortografias; tem dois léxicos e duas gramáticas bem diferentes.
Comparem "Sentei-me cá com ela e ficámos a conversar" (Portugal) com "Me sentei aqui com ela e ficamos conversando" (Brasil). Isso sem falar nos esquisitos "golo" (gol), "cancro" (câncer), "guarda-fatos" (guarda-roupa), e nos humorísticos "bicha" (fila), "cacete" (filão de pão) e "bica" (bebedouro). Unificar o quê?
Aliás, até nomes geográficos são distintos aquém e além-mar: "Irão", "Moscovo", "Bagdade", "Copenhaga", "Nuremberga", "Checoslováquia", "Jugoslávia". Nada semelhante ocorre em inglês.

Custo da mudança

Com a oficialização da nova grafia, inicia-se a transição na qual os ministérios da Educação deverão reciclar os professores e realfabetizar os estudantes, e editoras vão reimprimir livros, dicionários e outros materiais. Tudo a custo social e financeiro elevadíssimo.
O argumento de que não será mais preciso reimprimir livros brasileiros em Portugal e vice-versa, é outra inverdade: basta comparar a tradução portuguesa e a brasileira de qualquer best-seller para ver que falamos línguas diferentes, ainda que com uma só grafia.
Embora a realização de uma reforma seja custosa, é preciso ter em mente que qualquer reforma, mínima que seja, implica tais custos. Por isso, deveríamos aproveitar a oportunidade para promover uma reforma radical e definitiva na ortografia, eliminando as incoerências e instituindo um sistema simples e prático - ainda mais que a maioria dos falantes do português no mundo tem baixa ou nenhuma escolaridade, e a maior parte dos países lusófonos é pobre e presta serviços educacionais fracos.
Com a nova reforma, estima-se que 1,5% do vocabulário lusitano e de 0,5% do brasileiro sofrerão modificações gráficas. Apesar disso, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país. Ou seja, na prática, a "unificação" pouco unifica.

Mudanças que saltam à vista

TremaCai na maioria das palavras, como "tranqüilo", mas permanecem termos derivados de outras, de língua estrangeira, que tenham o sinal.

HífenCai em palavras que designam um ser ou objeto único, como anti-semita (que vira (antissemita"), mancha-chuva (vira "mandachuva") e pára-quedas ("paraquedas").

Ditongos ei e oiDeixam de ser acentuados, como "idéia".

Encontros vocálicos oo e eeDeixa de ser acentuado em terminações como "enjôo".

AlfabetoGanha três letras: k, y, w.
Consoantes mudas
Deixam de existir em Portugal e outros países, como "acção".

Acento diferencialDesaparece, como em "pára" (verbo) e "para" (preposição).

Dupla grafiaAdmitida em diferenças fonológicas inconciliáveis, como "fato" e "facto", "cômodo" e “cómodo".

Língua Portuguesa, ed. 21, jul. 2007.

8/16/2007

VOCÊ APRENDE


VOCÊ APRENDE

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de um tempo você aprende que o sol queima se você ficar exposto por muito tempo.
E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai ferí-lo de vez em quando e...
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que se leva um certo tempo para construir confiança e apenas segundos para destruí-la.
E que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.
Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam. Percebe que você e seu melhor amigo podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa...
Por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser, e que o tempo é curto.
Aprende que não importa onde já chegou, mas aonde está indo. Mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.
Aprende que ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa o quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprende que os heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.
Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que, algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a se levantar.
Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.
Aprende que há mais de seus pais em você do que você supunha.
Aprende que nunca deve dizer a uma criança que seus sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes ...
...e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem aprender a perdoar a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que julga, você em algum momento será julgado.
Aprende que não importa em quantos pedaços o seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.
Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar... Que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe... depois de pensar que não pode mais.
E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida.

WILLIAM SHAKESPEARE

VOCÊ APRENDE

8/13/2007

PRAZER DE ENSINAR BRINCANDO

Brincar pressupõe liberdade e atendimento a necessidades e interesses de quem aceita a brincadeira.

Algumas atividades que sugerimos a seguir podem ser desenvolvidas em sala de aula, e resultar em um processo de interação ensino e aprendizagem, de forma lúdica, prazerosa, ´podem ser desenvolvidas com os alunos da EJA 1ª a 4ª série e alunos de 5ª a 8ª série .

Brincadeiras de caminhar
A Professora sugere o sorteio dos temas que cada grupo vai imitar, para não haver conflitos, e de forma democrática, coordena os temas e os que não estão assistindo observam e anotam o que acharem que está acontecendo (detalhes da brincadeira), após a apresentação de todos os grupos, é importante sentarem em circulo, e abordar o que mais gostaram, o que os grupos perceberam, fazer o aluno expressar o que observou, sentiu, percebeu e escreveu. A brincadeira serve para avaliar, a confiança no outro, paciência, colaboração, espírito coletivo.

Desenvolvendo a brincadeira n° 1
O professor solicita que os alunos tirem seus calçados e caminhem:
• nas pontas dos pés;
• nos calcanhares;
• com o peso do corpo na parte interna dos pés;
• com o peso do corpo na parte externa dos pés;
• sobre os pés do colega, estimulando o contato físico e o respeito ao corpo do outro;
• de acordo com o ritmo da música e com o ritmo modificado (lento, médio, acelerado);
• de lado, com os pés emparelhados e alternados;
• imaginando que pisam na areia quente, no gelo, com chicletes grudados nos pés, na lama,

Brincadeira de imitar
Representando esses desafios, em uma outra oportunidade o professor pode abordar a brincadeira de imitar e sugerir aos alunos que imitem os animais de sua livre escolha, realizando determinados gestos. Essa brincadeira trabalha no aluno a idéia do ser capaz, da expressão corporal, a descontração depois de um dia de trabalhão cansativo.

Desenvolvendo a brincadeira n°. 2
• sugerir aos alunos que imitem animais de sua livre escolha, realizando determinados gestos:
– comendo, dormindo, brigando, brincando, andando, correndo, fazendo carinho em seu filhote, interagindo com o grupo, etc.;
• dividir a classe em equipes e cada uma delas receberá o nome de um esporte.
Cada esporte, então, deverá ser dramatizado por uma equipe e as outras tentarão adivinhá-lo. É importante lembrar que todos da equipe devem estar envolvidos nessa imitação e que, se preciso for, pode sugerir que um dos componentes faça o papel de algo concreto como à cesta de basquete, a rede de vôlei, (como se fosse o Severino da TV) etc.
• informar que, ao tocar o tambor, todos irão transformar-se no que for solicitado: reis e rainhas, sapos, caracóis, rios, árvores, leões, pessoas adultas, pessoas idosas, bebês... Ir acrescentando ações e situações como:
-reis e rainhas se abraçando, pessoa idosa atravessando a rua, uma mulher dando comida a um bebê, sementes que vão crescendo até virarem árvores, rios com forte correnteza, pessoas dentro de um barco que está em rio com muita correnteza, pássaros banhando-se na poça d'água, sapos perseguindo moscas, pessoas fugindo de uma tempestade.
Essa brincadeira permite trabalhar todo o esquema corporal, e a desenvoltura do aluno, ajudando-o a perder a vergonha, a timidez, o medo de se expressar, e os professores podem interagir com os alunos, orientando que no momento que pede para trocar de atividade, está trabalhando a idéia de limite, o momento certo de parar, e permitir que o outro aja, explicar a cumplicidade de um ajudar o outro, a descontração, o fazer sorrir, e assim segue, se observar bem a brincadeira, pode trabalhar muito mais temas. Explicar que a escola pode ser um lugar que proporciona prazer.

Brincadeiras corporais
O professor orienta os alunos a:
• encostarem partes do corpo no chão, na parede, no corpo de um amigo ao som de músicas ou instrumentos musicais. Exemplo: encostar as testas e dançar sem se afastar, de costas, de barriga, com as mãos espalmadas, com as pontas dos pés coladas...;
• colocarem vendas nos olhos e percorrerem a sala, tentando adivinhar onde estão, perto de qual objeto, quem é o amigo que está próximo, sem utilizar a fala e a visão, somente o tato;
• correrem, pularem ou fazerem exercícios físicos aeróbicos, percebendo as reações dos seus corpos: suor, coração acelerado, respiração ofegante, etc.
Essa brincadeira, faz os alunos se sentirem mais confiante, mais seguros em relação aos colegas, escola, e professor, além de trabalhar o esquema corporal, a expressão direcionada, respeito, limites, e sobretudo, mostra ao aluno que ele ainda possui uma criança dentro dele, que gosta de tudo isso, e que é capaz de participar e fazer tudo.


Brincadeiras livres
O professor deve:
• espalhar pela sala material re-aproveitável e deixar que os alunos façam suas criações, sem muita interferência, para que possa observar sua iniciativa e criatividade;
• sugerir que as criações sejam de duas formas: com colagem e sem colagem. Nas criações com colagem, o aluno terá um objeto mais duradouro e sem muitas mudanças.
Quando não usarem a cola, provavelmente os alunos trabalharão com desenhos de encaixe produzindo um quebra cabeça ou com organização de espaços, como um campo de futebol, uma casinha, um parque... partindo da sua realidade de pensamento.
Muitas outras atividades poderão ser incluídas, dependendo dos objetivos do professor e levando em conta, sempre, o grau de interesse das equipes que as realizam.

Dentro do processo ensino-aprendizagem, desenvolvido dentro de uma linha progressista, essa forma de trabalhar com o lúdico e o jovem e adulto, facilita a interatividade, de forma multidisciplinar, porque todas as brincadeiras, podem ser desenvolvidas nas disciplinas ministrada. Apesar da dos alunos da EJA, encontrarem-se sem motivações, o papel da escola e o propósito de seu projeto pedagógico consiste em resgatar esse aluno e para mantê-lo precisa voltar suas práticas para uma pedagogia de inclusão. Trazer ao aluno a possibilidade de se sentir capaz e junto com ele desenvolver essa capacidade adormecida, desacreditada por ele mesmo.


(Prof. Ivone)

Educação para um Brasil melhor



De Rubem Alves

Um país se constrói da mesma forma como se constrói uma casa. E como se constrói uma casa? Por onde se começa? Antes dos tijolos, do cimento, dos ferros e das telhas, é preciso que haja um desejo. Aquele momento quando alguém diz: "Que bom seria se eu tivesse uma casa!" Se o desejo bate forte, ele se transforma em Sonho. O Sonho é quando o desejo fica visível: a casa será amarela, terá uma varanda com rede, um jardinzinho na frente, uma cozinha gostosa, lareira...
Essa casa é um Sonho. Mas não se pode morar numa casa sonhada. Os sonhos, sozinhos, são fracos. Aí, para transformar a casa sonhada em casa de verdade, o Sonho chama em seu socorro a Inteligência. A Inteligência é o poder que torna possível a realização dos Sonhos. Explico. Eu era pequeno. Na casa do vizinho havia uma árvore carregada de frutinhas vermelhas, pitangas. Fiquei sonhando comê-las. Mas elas estavam do outro lado do muro, longe das minhas mãos. Aí o meu desejo chamou a Inteligência e lhe disse: "Diga-me o que fazer para comer as pitangas!" A Inteligência obedeceu e me disse: "É fácil. Basta que você construa uma maquineta de roubar pitangas. Uma maquineta de roubar pitangas se faz assim. Primeiro, é preciso encompridar o seu braço. Para isso use um cabo de vassoura. Mas um braço comprido não basta. É preciso colocar uma mãozinha na ponta. Amarre uma lata de massa de tomates vazia na ponta do cabo de vassoura. E faça um dente na lata, para prender a pitanga..." Foi o que eu fiz. E roubei e comi todas as pitangas que queria. Primeiro foi o Sonho. Depois a Inteligência... Os Sonhos fazem pensar.
A mesma coisa acontece com a casa. A gente sonha e o Sonho põe a Inteligência a funcionar: e ela pensa a planta da casa, o custo, o financiamento, os materiais necessários, os pedreiros, a administração...
Um país é uma casa grande onde construímos nossas pequenas casas. Um país é uma casa de casas... Constrói-se um país da mesma forma como se constrói uma casa. Com uma diferença. Para eu construir a minha casa bastam o meu Sonho e a minha Inteligência. Mas para se construir essa grande casa chamada país é preciso que muitos sonhem o mesmo Sonho. Quando muitas pessoas sonham juntas o mesmo Sonho dessa grande casa chamada país temos um povo. É o povo que constrói um país.
Essa é uma das missões da educação: formar um povo. Ou seja, ajudar as pessoas a sonhar sonhos comuns para que, juntas, possam construir. As escolas devem ser o espaço onde alunos e professores sonham e compartilham seus sonhos porque sem sonhos comuns não há povo, e não havendo um povo não se pode construir um país. Se eu sonho com um país de águas cristalinas e natureza preservada, meu sonho pessoal será inútil se não houver muitos que sonhem esse mesmo Sonho. Caso contrário as florestas serão destruídas e as águas serão poluídas.
Mas, como já disse, os Sonhos não bastam. Eles precisam da ajuda da Inteligência. Acontece que a Inteligência tem idéias próprias: só funciona quando um Sonho (ainda que bem pequeno) lhe dá ordens. É inútil obrigar a Inteligência a aprender mil coisas que não estão ligadas aos Sonhos. A Inteligência esquece logo (... porque é inteligente...). O que sobrou em você de tudo o que você teve de aprender na escola? Você esqueceu porque aqueles saberes não eram resposta aos seus sonhos.
É assim que construímos a nossa vida: com Sonhos e Inteligência.
É assim que se constrói um país melhor: com Sonhos e Inteligência.
Esse é o programa básico da educação.

7/29/2007

Será que Deus existe?

Será que Deus existe?[1]


O objectivo deste texto é expor tanto a versão como as objecções clássicas ao argumento do desígnio e introduzir os seus desenvolvimentos contemporâneos, sobretudo os que dependem das ideias de ajuste perfeito, princípio antrópico e complexidade irredutível. Mas como o domínio da filosofia da religião é frequentemente objecto de equívocos e confusões, irei primeiro distinguir esse domínio de outros domínios próximos e elucidar alguns conceitos fundamentais desta área. Assim, começarei por estabelecer o que é a filosofia da religião e por distingui-la da teologia, da psicologia, da sociologia e da fenomenologia da religião. Em seguida, esclarecerei o significado de alguns conceitos fundamentais, como os de teísmo e deísmo. Exporei depois a versão clássica do argumento do desígnio, de William Paley, e algumas objecções, também clássicas, de David Hume. Pelo meio elucidarei o que são argumentos por analogia. Por último, irei expor alguns dos desenvolvimentos recentes do argumento, como os que se devem a Richard Swinburne e Michael Behe.



O que é a filosofia da religião?



As religiões são, em geral, compostas por dois elementos principais: as verdades religiosas, as crenças consideradas verdadeiras numa dada religião, e os rituais, isto é, o conjunto de cerimónias com que os fiéis adoram a divindade. Quanto à forma como as conhecemos, as verdades religiosas são de dois tipos: verdades reveladas (isto é, de que o crente tem conhecimento por intermédio de revelação divina, como, por exemplo, a Santíssima Trindade) e verdades de razão, isto é, verdades que podem ser ― independentemente de serem ou não também conhecidas por revelação ― conhecidas unicamente por intermédio da razão, como a da existência de Deus. As primeiras são objecto da religião revelada e as segundas da religião natural ou teologia natural. São estas últimas que interessam mais aos filósofos da religião. O seu objectivo é verificar se podem ou não ser racionalmente justificadas. Assim, a filosofia da religião é o domínio da filosofia que, por processos estritamente racionais, investiga as crenças religiosas mais fundamentais, com o objectivo de determinar se são ou não justificadas.



Filosofia da religião e teologia



O que acabámos de dizer permite distinguir a filosofia da religião de algumas disciplinas que lhe são próximas.

Em primeiro lugar, a filosofia da religião não se identifica com a teologia. A teologia é o estudo sistemático do conjunto de crenças, tanto reveladas como de razão, de uma religião específica, com o objectivo de compreender como podem formar um todo coerente. Embora a teologia não seja exactamente o mesmo que apologética religiosa, isto é, que a defesa das crenças de uma religião, está muito próxima dela. Ora, de acordo com o que acabámos de dizer, há duas razões que impedem a teologia de se identificar com a filosofia da religião. A primeira é que a filosofia da religião não é uma apologética religiosa. Como veremos mais adiante, o género de estudo que se faz em filosofia da religião é independente de qualquer religião particular. A segunda é que a filosofia da religião não faz qualquer apelo à revelação.



Filosofia da religião e psicologia da religião



A filosofia da religião também não se confunde com a psicologia da religião. Podemos dizer que, em geral, a psicologia é o estudo dos processos mentais e dos comportamentos humanos. Por conseguinte, a psicologia da religião é o estudo dos processos mentais e dos comportamentos associados com a religião. Em psicologia da religião estuda-se, por exemplo, os fenómenos da conversão ou da experiência mística, com o objectivo de formular teorias que expliquem os processos mentais a eles ligados. Num sentido diferente, a psicologia da religião também pode ser entendida como a busca das causas psicológicas das crenças religiosas. Um dos primeiros a fazer psicologia da religião neste sentido da palavra foi David Hume, no século XVIII, com a obra História Natural da Religião.



Filosofia da religião e sociologia da religião



A filosofia da religião também não é sociologia da religião. A sociologia é uma ciência que estuda as sociedades humanas, as suas instituições, comunidades, populações, grupos, etc., e procura determinar como interagem e evoluem. Assim, a sociologia da religião estuda as instituições e comunidades religiosas e procura compreender a sua distribuição e influência nos diferentes sectores da sociedade. Por muito interessante e importante que este estudo possa ser ― e certamente é -, é muito diferente do estudo efectuado em filosofia da religião.



Filosofia da religião e fenomenologia da religião



Uma crença muito difundida é a que identifica a filosofia da religião com a fenomenologia da religião. A fenomenologia da religião é a tentativa, por um lado, de descrever os fenómenos religiosos de modo a revelar as crenças e atitudes dos crentes e, por outro, de classificar as actividades, as crenças e as instituições religiosas. Inclui-se neste estudo a compreensão das categorias de sagrado e profano, assim como as relações dos crentes com os objectos que se incluem nestas categorias. Uma vez mais, este é certamente um estudo muito interessante, mas também não é filosofia da religião. A filosofia da religião é apenas a busca da justificação racional das nossas crenças religiosas.



Problemas principais da filosofia da religião



De todas as crenças religiosas, a principal é a crença em Deus e, por isso, de um modo geral, os problemas mais importantes investigados pelos filósofos da religião estão relacionados com essa crença. Esses problemas são os que dizem respeito à existência, à natureza e à actividade de Deus.



A natureza de Deus: teísmo e deísmo



As grandes religiões monoteístas ocidentais ― o judaísmo, o islamismo e o cristianismo ― partilham uma concepção da natureza de Deus a que normalmente se chama teísta. De acordo com esta concepção, Deus é um ser pessoal, espiritual, sumamente sábio, sumamente bom e sumamente poderoso, que criou o mundo para o homem, que intervém no mundo por intermédio de milagres e profecias e que, graças à sua providência, protege o homem.

Para além desta concepção, é também relativamente frequente, sobretudo entre filósofos e cientistas, uma concepção de Deus em tudo idêntica à anterior mas que nega a providência divina e, por consequência, a sua intervenção no mundo. Nesta concepção, Deus é uma espécie de grande arquitecto ou relojoeiro, que fez o mundo e o abandonou à sua sorte. É costume chamar deísta a esta concepção da Divindade.



A existência de Deus



Um dos problemas tratados em filosofia da religião é o de saber se alguma destas definições, em particular a primeira, é correcta ― discute-se, por exemplo, se, sendo Deus sumamente poderoso, pode criar uma pedra que não pode levantar. Outro problema é o de saber se um ser com uma natureza que corresponda a estas definições existe. É este problema que as provas da existência pretendem resolver.



O argumento do desígnio



O argumento do desígnio é de uma grande simplicidade e elegância. É, como o argumento cosmológico, um argumento a posteriori, isto é, um argumento que contém premissas cuja verdade só pode ser conhecida por intermédio da experiência. Ainda assim, há um aspecto que distingue estes argumentos. O argumento cosmológico é um argumento dedutivo, ao passo que o argumento do desígnio é uma forma de argumento não dedutivo. A consequência imediata deste facto é que mesmo que o argumento do desígnio cumpra todas as condições necessárias para que seja um argumento não dedutivo bom, não prova de modo incontestável a existência de Deus. O máximo que o argumento pode fazer é mostrar que a probabilidade de a sua conclusão, a saber, que Deus existe, ser verdadeira é elevada[2].



Sinopse histórica



De todas as provas da existência de Deus, o argumento do desígnio é, histórica e filosoficamente, a mais importante. Na sua forma mais simples ― isto é, na forma de que há uma ordem e, portanto, tem de haver um responsável pela ordem ― é certamente a mais antiga de todas as provas. Na sua forma mais elaborada e filosófica, ele encontra-se nos diálogos Fédon (97 c) e Timeu (46 d-e), de Platão, e é a quinta das 'Cinco Vias' que S. Tomás de Aquino apresenta na Suma Teológica. Mas é nos séculos XVIII e XIX que a prova é mais popular, sendo largamente aceite como prova da existência de Deus. Nesta altura, ciências como a astronomia, a química e a biologia ― em particular esta última ― forneceram uma grande quantidade de exemplos de sistemas ordenados, cuja complexidade torna praticamente inconcebível que sejam o resultado do puro acaso. Na primeira metade do século XX e na sequência da crítica de Hume e Darwin, o interesse pelo argumento do desígnio diminuiu. Esse interesse foi, no entanto, aumentando à medida que esse século caminhou para o fim e é hoje novamente grande, com filósofos como Alvin Plantinga e Richard Swinburne e cientistas como Michael Behe a proporem versões do argumento que têm provocado acesa controvérsia e debate.



Versão nomológica e teleológica do argumento do desígnio



É costume distinguir duas versões do argumento do desígnio, consoante se ponha ênfase na ordem do mundo ou na adequação dos objectos aos fins. À primeira versão do argumento chama-se nomológica, da palavra grega nomos, que significa norma ou lei; à segunda chama-se teleológica, da palavra grega telos, que significa fim, propósito. Assim, o argumento do desígnio pode, conforme os casos, ser uma tentativa de provar a existência de Deus a partir da ordem do mundo (versão nomológica do argumento) ou a partir da existência de um propósito ou fim, seja no mundo como um todo seja numa classe de seres do mundo, como os organismos vivos (versão teleológica do argumento).

A exposição de Paley do argumento mistura as duas versões: a ordem implica desígnio e é depois este que vai implicar, como melhor explicação, um projectista cósmico. E Hume, embora às vezes oscile entre uma e outra versão, também não faz em geral qualquer distinção entre ambas.



A versão de William Paley



A apresentação clássica do argumento do desígnio é a que se encontra no livro Teologia Natural que William Paley publicou nos começos do século XIX.

"Ao atravessar uma mata, suponha que tropeço numa pedra e me perguntam como foi ela ali parar. Poderia talvez responder que, tanto quanto me é dado a saber, a pedra sempre ali esteve; e talvez não fosse muito fácil mostrar o absurdo desta resposta. Mas suponha que eu tinha encontrado um relógio no chão e procurava saber como podia ele estar naquele lugar. Muito dificilmente me poderia ocorrer a resposta que tinha dado antes ― que, tanto quanto me era dado saber, o relógio poderia sempre ali ter estado. Contudo, por que razão esta resposta, que serviu para a pedra, não serve para o relógio? Por que razão não é esta resposta tão admissível no segundo caso como no primeiro? Por esta razão e por nenhuma outra: a saber, quando inspeccionamos o relógio, vemos (o que não poderia acontecer no caso da pedra) que as suas diversas partes estão forjadas e associadas com um propósito; por exemplo, vemos que as suas diversas partes estão fabricadas e ajustadas de modo a produzir movimento e que esse movimento está regulado de modo a assinalar a hora do dia; e vemos que se as suas diversas partes tivessem uma forma diferente da que têm, se tivessem um tamanho diferente do que têm ou tivessem sido colocadas de forma diferente daquela em que estão colocadas ou se estivessem colocadas segundo uma outra ordem qualquer, a máquina não produziria nenhum movimento ou não produziria nenhum movimento que servisse para o que este serve. […] Tendo este mecanismo sido observado […], pensamos que a inferência é inevitável: o relógio teve de ter um criador; teve de existir num tempo e num ou noutro espaço, um artífice ou artífices que o fabricaram para o propósito que vemos ter agora e que compreenderam a sua construção e projectaram o seu uso. […] Pois todo o sinal de invenção, toda a manifestação de desígnio, que existia no relógio, existe nas obras da natureza, com a diferença de que na natureza são mais, maiores e num grau tal que excede toda a computação. Quero dizer que os artefactos da natureza ultrapassam os artefactos da arte em complexidade, em subtileza e em curiosidade do mecanismo; e, se possível, ainda vão mais além deles em número e variedade; e, no entanto, num grande número de casos não são menos claramente mecânicos, não são menos claramente artefactos, não são menos claramente adequados ao seu fim ou menos claramente adaptados à sua função do que as produções mais perfeitas do engenho humano. […] Em suma, após todos os esquemas e lutas de uma filosofia relutante, temos necessariamente de recorrer a uma Deidade. Os sinais de desígnio são demasiado fortes para serem ignorados. O desígnio tem de ter um projectista. Esse projectista tem de ser uma pessoa. Essa pessoa é DEUS."

William Paley, Natural Theology, 1802, Chap. 1, 3 e 27.


Note-se que o texto de William Paley não se limita a afirmar que o relógio é feito com um propósito ou um desígnio para tirar daí depois a conclusão que tem de existir um criador. Ele chama também a atenção para o facto de as partes do relógio estarem de tal modo ajustadas entre si que a mais pequena alteração impediria que o relógio fizesse aquilo para que foi concebido[3]. É esta complexidade, que exige explicação, mas que, assim pensam os defensores do argumento, é também impossível de explicar por processos estritamente naturais, o que conduz à ideia de desígnio e, por extensão, à ideia de um criador. Tendo isto em conta, podemos apresentar o argumento de Paley da seguinte forma:

Primeira premissa: O relógio tem as suas diversas partes forjadas e associadas com o propósito de produzir movimento; esse movimento está regulado para assinalar a hora do dia e se as suas diversas partes estivessem configuradas de forma diferente, tivessem outro tamanho, estivessem colocadas de forma diferente ou segundo uma outra ordem qualquer, o relógio não originaria nenhum movimento, pelo que o relógio tem de ter um criador, o artífice que o fez.

Segunda premissa: Os seres vivos, por maioria de razão, também revelam ordem, complexidade e desígnio. (Isto é, as suas diversas partes também estão organizadas e associadas com um propósito e se essas partes estivessem configuradas de forma diferente, tivessem outro tamanho, estivessem colocadas de forma diferente ou segundo uma outra ordem qualquer, não cumpririam a sua função.)

Conclusão: Portanto, também os objectos naturais têm um criador. E como o criador tem de ser proporcional à obra criada, esse criador é Deus.

No resto da obra, Paley estende o argumento ao universo e aos objectos naturais existentes no universo, em particular, aos organismos vivos e, entre estes, dá especial atenção ao olho humano que, pensa ele, constitui por si só uma prova da existência de um criador inteligente.



O argumento por analogia



O ponto central do argumento do desígnio é a relação de semelhança que estabelece entre os artefactos humanos e os objectos naturais: os objectos naturais ― tal como os artefactos humanos ― revelam desígnio. Assim, o argumento do desígnio é um argumento por analogia e isto tem algumas consequências interessantes. Vejamos primeiro o que são argumentos por analogia e em seguida as consequências que daqui resultam.

Os argumentos por analogia são argumentos indutivos. Daqui resulta uma consequência óbvia para o argumento do desígnio, a saber, na melhor das hipóteses, isto é, se o argumento for bom, mostrará apenas que é provável que a conclusão seja verdadeira. Uma segunda consequência importante do facto do argumento por analogia ser um argumento indutivo é que a sua força depende da informação disponível e, sobretudo, da relevância dessa informação para a conclusão que procura estabelecer. Vejamos melhor o que isto significa.

Um argumento por analogia tem, normalmente, a seguinte forma:

A entidade e tem as propriedades A, B, C, e Z.

A entidade n tem as propriedades A, B e C (Ou a entidade n é como a entidade e).

Logo, a entidade n tem a propriedade Z.

Uma aplicação muito conhecida do argumento por analogia é na investigação em Farmacologia, quando se testam novas drogas ou medicamentos. Nestes casos, escolhe-se em geral para testar essas drogas, animais que sejam semelhantes, naquilo que é relevante para o que se pretende saber, àqueles nos quais essas drogas vão ser aplicadas. Por exemplo, se a droga em questão tem por fim tratar uma qualquer afecção de coração dos seres humanos, os animais escolhidos para testar a droga não podem ser répteis ou peixes, mas aqueles que tiverem um sistema de circulação do sangue (e, em particular, um coração) semelhante ao dos seres humanos. A razão de ser disto é óbvia: esta é a forma de garantir ao máximo a fiabilidade dos resultados quando aplicados aos seres humanos. O argumento por detrás disto tem a seguinte forma:

O animal a tem um sistema de circulação do sangue x e a droga y tem nele os efeitos A, B, C e D.

O homem é, nos aspectos relevantes para o que se pretende saber (isto é, tem um sistema sanguíneo), semelhante ao do animal a.

Logo, a droga y terá nele os efeitos A, B, C e D.

A força do argumento, isto é, a sua capacidade de nos persuadir de que a conclusão é verdadeira depende

1) do grau efectivo de semelhança entre as propriedades das entidades comparadas. Se essa semelhança é elevada, a probabilidade de a conclusão ser verdadeira é elevada; se essa semelhança é baixa, a probabilidade de a conclusão ser verdadeira é também baixa.


2) da relevância das semelhanças para a conclusão a que se pretende chegar. Se as propriedades comparadas são semelhantes e são relevantes para o que se pretende concluir, a analogia é forte e a probabilidade da conclusão ser verdadeira também; mas se a analogia não têm qualquer relação com o que se pretende concluir a probabilidade de a conclusão ser verdadeira é baixa.


3) do número das semelhanças relevantes. Quanto maior o número de semelhanças relevantes para a conclusão mais forte é a analogia.


4) da natureza e grau das diferenças. Estas diferenças podem enfraquecer ou fortalecer o argumento analógico, consoante elas acentuem ou não a relevância das propriedades para a conclusão. Quando Paley chama a atenção para a maior complexidade dos organismos vivos (em relação aos artefactos), isso, supostamente, reforça a conclusão de que têm desígnio e, portanto, um projectista.

A força ou fraqueza do argumento por analogia, por conseguinte, depende em larga medida da semelhança das entidades comparadas e da relevância das propriedades para a conclusão que se pretende estabelecer. Não é de admirar, portanto, que algumas das críticas ao argumento se centrem nestes pontos. O primeiro será objecto das críticas de Hume; o segundo, de Darwin.



Críticas ao argumento do desígnio



O argumento do desígnio parte da constatação de que os artefactos humanos têm um conjunto de propriedades que revelam desígnio e, portanto, a existência de um criador. Depois afirma que o universo (ou alguma parte dele, orgânica ou inorgânica) tem o mesmo tipo de propriedades que os artefactos, para concluir daí que também o universo (ou certas partes dele) revela desígnio e que, portanto, tem um projectista, Deus.

Tanto as premissas como a conclusão do argumento podem ser postas em questão, incluindo a primeira premissa, ou melhor, a parte dela que sugere que a ordem e a complexidade implicam a existência de desígnio. Esta ideia pode parecer-nos verdadeira porque sendo os artefactos (isto é objectos feitos pelos seres humanos) os exemplos, eles são-nos tão familiares que não temos dúvidas de que, no seu caso, a ordem e a complexidade exigem desígnio. Repare-se, no entanto, que não é no facto de os artefactos terem origem humana que Paley se apoia para dizer que têm desígnio, mas na ordem e complexidade que revelam. Assim, a primeira premissa aparece como a ilustração de uma outra mais geral que não é explicitamente formulada: "objectos excessivamente complexos e ordenados revelam a existência de desígnio". Esta afirmação é, por razões óbvias, muito mais contestável. Que da existência de ordem e complexidade se siga a existência de desígnio é tudo menos evidente. Daí que alguns filósofos tenham se dado ao cuidado de, primeiro, formular argumentos, a que se costuma chamar argumentos da ordem, para tentar mostrar que a ordem implica desígnio e só depois de isto feito procuraram mostrar que tem de haver uma causa para esse desígnio, isto é, um projectista.[4] Contudo, como este problema se coloca também a propósito da segunda premissa, que assume que a ordem e a complexidade do mundo revelam a existência de desígnio, e como, além disso, há um conjunto de outros problemas igualmente importantes que são específicos dessa premissa, é a ela que tem sido dada mais atenção e é a respeito dela que têm sido formuladas as objecções mais interessantes.

São algumas das objecções a essa premissa, quer no que respeita à sua pretensão de que os objectos naturais revelam desígnio quer na pretensão de que são semelhantes aos objectos artificiais, que iremos ver a seguir. Começaremos pelas críticas de Hume a essa premissa, passaremos depois para as suas objecções à conclusão e, por fim, voltaremos à segunda premissa para vermos as dificuldades que o darwinismo lhe coloca. Muitos cientistas e filósofos consideram que, em conjunto, as críticas de Hume e Darwin tiram completa e irreversivelmente a credibilidade ao argumento do desígnio. Como veremos mais adiante, sobretudo na actualidade, há vários filósofos e cientistas que discordam.



A crítica de Hume



Por um capricho do destino, as principais críticas ao argumento do desígnio de Paley já tinham sido publicadas vinte e três anos antes de Teologia Natural, numa obra póstuma de Hume que Paley aparentemente desconhecia, os Diálogos sobre a Religião Natural. Nessa obra, publicada pelo seu sobrinho, Hume faz uma crítica, considerada ainda hoje definitiva, da versão de Paley do argumento do desígnio. São algumas dessas críticas que iremos agora ver.



Analogia fraca



Como dissemos anteriormente, algumas das principais críticas de Hume ao argumento do desígnio são dirigidas à analogia entre os artefactos humanos e os objectos naturais quaisquer que eles sejam e qualquer que seja o seu tipo.

Para Hume, um argumento por analogia é tanto mais forte quanto maior a semelhança entre os objectos comparados, sendo maximamente forte quando existe uma exacta semelhança entre esses objectos, que permita, a partir daquilo que sabemos acerca de uns, estabelecer algo acerca do outro ou dos outros com toda a certeza. Quando isso não acontece, a analogia é fraca e tão mais fraca quanto menos semelhantes forem os objectos comparados. "Observámos milhares e milhares de vezes que uma pedra cai, que o fogo queima, que a terra tem solidez; e quando uma nova instância desta natureza ocorre, tiramos sem hesitar a inferência habitual. A exacta semelhança dos casos dá-nos a certeza absoluta de um acontecimento semelhante e nunca desejamos nem procuramos uma evidência mais forte. Mas, sempre que vos afasteis, por pouco que seja, da similaridade dos casos, diminuís proporcionalmente a evidência e podeis por fim reduzi-la a uma analogia muito fraca, que está manifestamente sujeita ao erro e à incerteza." (Diálogos, Parte II). E Hume dá exemplos: "Após termos observado a circulação do sangue nas criaturas humanas, não temos dúvidas de que ela ocorre em Titius e Mævius. Mas, da sua circulação nas rãs e nos peixes, só podemos chegar a uma suposição, embora forte, por analogia, de que ocorre nos homens e nos outros animais. Quando, a partir da nossa experiência de que o sangue circula nos animais, inferimos a circulação da seiva nos vegetais, o raciocínio analógico é muito mais fraco." (Diálogos, Parte II) ou "Se vemos uma casa (…) concluímos, com a maior das certezas, que teve um arquitecto ou construtor, porque este é precisamente o género de efeito que vimos proceder daquele género de causa." (Diálogos, Parte II). Ora, não é isto que acontece com o universo. "Mas, certamente não ireis afirmar que o universo se parece de tal modo com uma casa, que podemos com a mesma certeza inferir uma causa similar ou que a analogia é aqui completa e perfeita. A dissimilitude é tão impressionante que o máximo a que podeis aspirar neste ponto é a uma suposição, uma conjectura, uma presunção a respeito duma causa similar." (Diálogos, Parte II) E, para piorar as coisas, aquilo que a astronomia revela (obviamente no tempo de Hume) sobre o universo só tem tornado mais evidente a dissemelhança que existe entre este e qualquer objecto fabricado pelo homem: "Todas as recentes descobertas em astronomia . . . tornam-se outras tantas objecções, por afastarem o efeito ainda mais de toda a semelhança com os efeitos da arte e invenção humanos." (Diálogos, Parte V).

Em resumo, não é de todo possível estabelecer a semelhança entre os artefactos humanos e os objectos naturais e, portanto, no caso destes não é de todo possível provar a existência de desígnio e de um projectista cósmico.



A singularidade do universo



A fraqueza da analogia e a dissemelhança entre os artefactos e os objectos naturais revela-se ainda mais flagrante quando, em vez de se procurar estabelecer a semelhança entre os artefactos e os objectos naturais, se pretende estabelecer a semelhança entre os artefactos humanos e o universo. É pela experiência que sabemos que os artefactos têm desígnio e um criador. Temos boas razões, quando vemos um artefacto, para pensar que tem desígnio e um criador porque nos habituámos a associar, pelo hábito ou costume, um ao outro. No entanto, no caso do universo, esta vantagem não existe. O universo é único e não temos, portanto, experiência anterior de outros universos. Assim, também não temos experiência de como surgiram em que nos possamos basear para, a partir da constatação da existência deste universo, podermos, por hábito ou costume, inferir a natureza da sua causa. "Quando duas espécies de objectos foram sempre vistas juntas, o costume permite-me inferir a existência de uma delas onde quer que veja a outra; e a isto chamo um argumento a partir da experiência. Mas é difícil explicar como este argumento se pode aplicar quando os objectos, como acontece neste caso, são singulares, individuais, sem paralelo ou semelhança específica. E dir-me-á alguém, com semblante sério, que um universo ordenado tem de provir de um pensamento e arte como os humanos, porque temos disso experiência? Para verificar este raciocínio seria necessário que tivéssemos experiência da origem dos mundos e não é seguramente suficiente que tenhamos visto navios e cidades resultarem da arte e invenção humanas. . ." (Diálogos, Parte II)



Diversas fontes de ordem possíveis



Mesmo que se admita que a ordem que os objectos naturais revelam indicia a existência de desígnio, real ou aparente, não se segue daí que a causa desse desígnio seja semelhante aos seres humanos. Uma vez que, tanto quanto sabemos, um pensamento e uma razão semelhantes às humanas são apenas causas de um número muito pequeno de acontecimentos e há outras causas na natureza que também dão origem a objectos com uma ordem e um arranjo semelhantes aos causados pelos seres humanos, é perfeitamente possível que o desígnio, real ou aparente, dos objectos naturais não tenha origem numa causa idêntica a nós.

Hume explora esta ideia em duas direcções diferentes.



A hipótese da geração e vegetação



Numa, parte da possibilidade da ordem e do desígnio dos objectos naturais, devido a assemelharem-se igualmente bem aos efeitos dos animais e das plantas, terem origem em causas desse tipo. Assim, o mundo seria o resultado da geração e da vegetação e não de um agente inteligente semelhante a nós. "Só neste pequeno canto do mundo há quatro princípios, razão, instinto, geração, vegetação, que são similares uns aos outros e são as causas de efeitos similares. Que quantidade de outros princípios não poderíamos naturalmente supor na imensa extensão e variedade do universo, se pudéssemos viajar de planeta para planeta e de sistema para sistema, a fim de examinar cada parte desta poderosa estrutura? Qualquer um dos quatro princípios acima mencionados (e uma centena de outros que se abrem à nossa conjectura) pode fornecer-nos uma teoria pela qual julgar da origem do mundo; e constitui uma parcialidade manifesta e egrégia limitar inteiramente a nossa perspectiva ao princípio pelo qual as nossas próprias mentes operam. Se com isso este princípio se tornasse mais inteligível, tal parcialidade poderia ser um tanto desculpável. Mas a razão, na sua trama e estrutura internas, é-nos realmente tão pouco conhecida quanto o instinto ou a vegetação e talvez até aquela palavra vaga e indeterminada, natureza, à qual o vulgo reduz tudo, não seja no fundo mais inexplicável. Conhecemos por experiência os efeitos destes princípios, mas os próprios princípios e a sua maneira de operar são totalmente desconhecidos. E dizer que o mundo surgiu por vegetação de uma semente lançada por outro mundo não é menos inteligível ou está menos de acordo com a experiência, do que dizer que surgiu de uma razão ou de uma invenção divinas, no sentido em que CLEANTES as entende." (Diálogos, Parte VII).



A hipótese epicurista



Na outra, faz, como ele diz, reviver a hipótese epicurista (segundo a qual tudo o que existe ― incluindo os deuses ― é produto do movimento da matéria devido a causas estritamente mecânicas) com ligeiras alterações. "E se, por exemplo, eu fizesse reviver a velha hipótese EPICURISTA? Este sistema é geralmente considerado ― e creio que com inteira justiça ― o mais absurdo alguma vez proposto; apesar disso, não sei se, com algumas alterações, não se pode fazer com que apresente uma ténue aparência de probabilidade. Em vez de, como fez EPICURO, supor a matéria infinita suponhamo-la finita. Um número finito de partículas é apenas susceptível de transposições finitas e, numa duração eterna, tem de ocorrer que cada ordem ou posição possível seja tentada um número infinito de vezes. Por conseguinte, este mundo, com todos os seus acontecimentos, mesmo os mais insignificantes, foi antes produzido e destruído e será novamente produzido e destruído, sem quaisquer limites ou restrições. Ninguém que tenha uma concepção dos poderes do infinito em comparação com os do finito, duvidará alguma vez desta determinação." (Diálogos, Parte VIII). Esta hipótese, tal como a outra, é consistente com o que sabemos acerca do mundo e, portanto, tão possível quanto a hipótese religiosa, que atribui a origem do universo a um deus com propriedades intelectuais semelhantes às dos seres humanos, embora num grau muito superior.

Não existe, portanto, nenhuma boa razão para preferir a explicação teísta a qualquer das outras alternativas. Tanto essa hipótese, como qualquer das outras explica igualmente bem ― ou igualmente mal ― a ordem e o desígnio (ou aparente desígnio) e não há nenhuma razão que justifique que optemos por essa hipótese em vez de qualquer das outras.



Restrições à conclusão



Se admitirmos, por hipótese, que os objectos naturais são semelhantes aos artefactos humanos e que o argumento do desígnio é válido, resultarão da aplicação do princípio da proporcionalidade algumas consequências para a forma como a divindade pode ser concebida. O princípio da proporcionalidade subjaz ao argumento do desígnio, pois é a ideia de que os supostos efeitos são semelhantes (neste caso, o universo e os artefactos humanos), que permite inferir que as causas têm características semelhantes e, que, portanto, a causa do universo tem capacidades intelectuais semelhantes às nossas, embora superiores. Hume chama a atenção para duas consequências principais que resultam deste princípio:

1) Não é possível afirmar que os atributos da divindade são infinitos, porque, como a causa deve ser proporcional aos efeitos e os efeitos não são infinitos, a causa também não é.


2) Não é possível dizer que a Deidade, mesmo na sua capacidade finita, é perfeita ou supor que os seus empreendimentos estão livres de todo o erro, engano ou incoerência.


Assim, se se aceitar o princípio da proporcionalidade, segue-se que Deus não é infinito nem perfeito. Deste facto, Hume tira algumas consequências devastadoras para a religião.



Conclusões incompatíveis com o teísmo



1) em vez de ser a obra de um único Deus, o mundo pode ser a obra de muitos deuses, todos mais finitos e imperfeitos do que a sua própria obra. "Mas, mesmo que este mundo fosse uma produção tão perfeita, continuaria a ser duvidoso que se pudesse correctamente atribuir ao artífice todas as perfeições da obra. Se examinarmos um navio, que ideia elevada não formaremos do engenho do carpinteiro que construiu uma máquina tão complicada, útil e bela? E que surpresa não deveremos sentir ao verificarmos que se trata de um estúpido mecânico que imitou outros e copiou uma arte que, durante uma longa sucessão de épocas, após múltiplas tentativas, enganos, correcções, deliberações e controvérsias, foi gradualmente melhorada? Muitos mundos podem ter sido atamancados e destruídos ao longo de uma eternidade, antes que este sistema tenha surgido; muito trabalho perdido; muitas tentativas infrutíferas feitas; e um lento, mas gradual aperfeiçoamento na arte de fazer mundos ter sido levado a cabo durante épocas sem fim." (Diálogos, Parte V).

2) se as divindades são, como resulta do que foi dito acima, semelhantes aos homens, então é possível que se lhes assemelhem também em outras características físicas, a saber, tenham sexo, olhos, bocas, narizes, etc. "Além disso, (...) os homens são mortais e renovam a sua espécie por geração; e isto é comum a todas as criaturas vivas. Os dois grandes sexos, macho e fêmea, diz MILTON, animam o mundo. Por que deve esta circunstância, tão universal e tão essencial, ser excluída dessas Deidades numerosas e limitadas? Contemplai então a teogonia dos tempos antigos a ser-nos trazida de volta.

E por que não se tornar um antropomorfista completo? Por que não afirmar que a Deidade ou Deidades são corpóreas e têm olhos, nariz, boca, ouvidos, etc?" (Diálogos, Parte V).

3) tem de se admitir todas as hipóteses imagináveis para explicar o mundo, desde uma divindade infantil a um deus senil passando por uma divindade inferior e subalterna. "Por aquilo que sabe, quando comparado com um padrão superior, este mundo é muito defeituoso e imperfeito; e foi apenas a primeira e grosseira tentativa de uma Deidade infantil, que a seguir o abandonou, envergonhada da sua defeituosa realização; é meramente a obra de uma Deidade inferior e subalterna e constitui o objecto de troça dos seus superiores; é a produção de velhice e de senilidade de uma Deidade aposentada e, desde a sua morte, continua, à aventura, devido ao primeiro impulso e à força activa que dela recebeu...." (Diálogos, Parte V).



O problema do mal



4) Por último, a semelhança do mundo com os artefactos e da causa do mundo com os seres humanos torna difícil, se não impossível, sustentar que a Divindade tem as características morais que o teísmo lhe atribui.



A crítica de Darwin



A última objecção de que irei falar é a que resulta da teoria da selecção natural de Charles Darwin. O problema que Darwin procura resolver com a selecção natural é o da diversidade da vida e não o de saber se Deus existe ou não (embora na altura, como hoje, as duas questões não estivessem completamente desligadas). No entanto, a solução que encontrou para aquele problema tem profundas implicações para o argumento do desígnio. Vejamos primeiro em que consiste a solução de Darwin e depois de que forma ela afecta esse argumento.

Até Darwin a teoria aceite para explicar a diversidade dos organismos vivos era a da criação especial divina, isto é, a ideia de que Deus tinha criado todos os seres vivos tal como existem actualmente. No entanto, com a descoberta de cada vez mais fósseis, esta teoria foi-se tornando cada vez menos satisfatória e, antes mesmo de Darwin, houve quem defendesse que as espécies não são fixas mas evoluem. Um dos primeiros a defender a evolução das espécies foi o próprio avô de Darwin, Erasmus Darwin. Ele pensava que as espécies actualmente existentes nem sempre tinham existido e que outras existentes no passado tinham entretanto deixado de existir e propôs para mecanismo explicativo da mudança um mecanismo idêntico ao proposto mais ou menos na mesma altura por Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829). De acordo com essa teoria, os seres vivos adquirem durante a vida certas características que transmitem depois aos descendentes. O lamarkismo nunca foi suficientemente convincente para ter aceitação geral e, no tempo de Darwin, a maior parte dos biólogos, geólogos, etc., incluindo o próprio Darwin, pensavam que o criacionismo era verdadeiro. O primeiro acontecimento a contribuir para que tudo isto mudasse foi a viagem que Darwin efectuou em 1831 a bordo do navio HMS Beagle. O Beagle tinha por missão investigar a costa ocidental e oriental do continente sul-americano. Darwin foi convidado para participar na viagem na qualidade de naturalista de bordo e nos cinco anos que durou a expedição, teve a oportunidade de estudar atentamente espécies e habitats completamente desconhecidos na Europa. De tudo o que viu, nada chamou mais a atenção e intrigou mais Darwin do que os animais que observou nas ilhas Galápagos ― um conjunto de ilhas ao largo da costa sul-americana com uma fauna muito diferente da fauna desse continente e suficientemente afastadas umas das outras para que as espécies de uma ilha pudessem comunicar com as de outra ilha. Em particular, chamou a atenção de Darwin os tentilhões, que diferiam de ilha para ilha, perfeitamente adaptados ao habitat de cada ilha, com, por exemplo, bicos diferentes consoante o alimento dominante na ilha fosse sementes, frutos ou insectos. Para Darwin, a única explicação plausível para isto passava por admitir que os animais evoluíam de modo a adaptarem-se às condições do seu habitat: "It was evident that such facts as these as well as many others could be explained on the supposition that species gradually become modified; and the subject haunted me." ('Autobiography' (1903), in Charles Darwin and T. H. Huxley: Autobiographies, edited with an Introduction by Gavin de Beer, London, Oxford University Press, 1974, p. 70.)

No entanto, isto não resolvia completamente o problema, porque, tal como aconteceu com o seu avô, Darwin tinha ainda que encontrar um mecanismo que explicasse como é que a evolução se faz. E encontrou-o na obra de Malthus. Thomas Malthus (1766-1824) tinha publicado em 1798 o Ensaio sobre as Populações no qual afirmava que a população humana cresce numa proporção geométrica enquanto os meios de subsistência crescem numa proporção aritmética resultando numa pressão sobre os recursos ambientais que origina a pobreza, a fome e a guerra. Darwin aplicou esta ideia não apenas aos seres humanos, mas a todos os seres vivos e fez dela o princípio que está por detrás do mecanismo da selecção natural: nascem mais seres vivos do que os que o meio ambiente pode sustentar pelo que os dotados de variações que favoreçam a sobrevivência sobrevivem e os outros não. Com o tempo, este processo faz as espécies evoluírem e produz novas espécies.

Vejamos um pouco mais em detalhe como a selecção natural funciona. O exemplo que vou utilizar segue de perto o formulado por Elliott Sober em Core Questions of Philosophy.[5] Imaginemos que num grupo de zebras capazes de correr a cerca de 55 Km/h, surgia uma zebra capaz de correr a 56 Km/h, uma pequena diferença, mas que representa uma vantagem adaptativa significativa para a zebra que a possui. Devido a ser capaz de correr um pouco mais depressa, essa zebra tem mais possibilidades de escapar aos predadores (que correm também a cerca de 55 Km/h) e de se reproduzir. Imaginemos agora que os descendentes desta zebra herdam esta característica da sua progenitora e correm também a 56 Km/h. Também eles vão usufruir das mesmas vantagens adaptativas. Os predadores, tendencialmente, capturarão zebras menos velozes e as mais velozes terão mais possibilidades de se reproduzirem. A consequência última deste processo é que, com o tempo, todas as zebras do grupo correm a 56 Km/h.

Por que razão constitui a selecção natural, tal como é ilustrada por este exemplo, uma objecção ao argumento do desígnio? Porque a selecção natural explica a complexidade dos organismos vivos sem recorrer ao propósito ou ao desígnio e, portanto, sem uma causa inteligente que seja a origem deste desígnio. Por outras palavras, a teoria da selecção natural explica os organismos vivos por uma causalidade mecânica e não por uma causalidade pessoal. O olho humano, que, segundo Paley, por si só seria prova de um desígnio e de um criador inteligente, é afinal explicado por um processo cego e da natureza. O desígnio da natureza é, portanto, um desígnio aparente e não real.

Repare-se que Darwin não se limita a fornecer uma hipótese alternativa para explicar um fenómeno conhecido (a complexidade dos organismos vivos), o que por si seria suficientemente destrutivo para a hipótese do desígnio inteligente, uma vez que se houver uma outra explicação igualmente plausível se torna impossível dizer que a hipótese do desígnio é verdadeira. Darwin vai mais longe e afirma que a selecção natural é a explicação correcta para o fenómeno. Isto é, Darwin não se limita a levantar dúvidas à hipótese do desígnio. Declara-a falsa.



As versões modernas



Pode-se pensar que a crítica de Hume e Darwin ao argumento do desígnio constituem o dobrar a finados para este argumento. E durante algum tempo assim foi. Mas, a partir da segunda metade do séc. XX começaram a surgir outras versões do argumento que, melhor ou pior, procuram evitar as objecções de Hume e Darwin. Uma dessas tentativas é a de Richard Swinburne; outra é a dos defensores modernos do desígnio inteligente. São estas versões do argumento que, em traços gerais, vamos agora ver.



A versão do argumento do desígnio de Swinburne



Swinburne apresentou a sua versão do argumento do desígnio pela primeira vez em The Existence of God, e depois disso com ligeiras diferenças em outros locais. Um desses locais é o artigo da Think referido na bibliografia. Outro é o livro Será que Deus existe?.

Embora parta também, como as outras versões do argumento do desígnio, da ordem do mundo para Deus, a versão de Swinburne não se baseia na analogia com os artefactos e, por isso, não está sujeita às objecções a que está sujeita a versão de Paley.

Segundo Swinburne, há duas espécies de ordem no universo:

1) ordem espacial (regularidades de co-presença) e

2) ordem temporal (regularidades de sucessão, como as leis de Newton, em que os objectos se comportam de acordo com certas leis da natureza).

O argumento de Paley é um argumento a partir da ordem espacial, isto é, baseado na complexidade dos animais e das plantas. Swinburne pensa que Darwin, ao mostrar como a complexidade natural tem origem, tornou definitivamente esta versão do argumento do desígnio muito fraca.

Mas, a ordem temporal não está sujeita a esta dificuldade e é mais básica do que a ordem espacial, uma vez que esta, qualquer que ela seja, depende da ordem temporal. Swinburne considera extraordinária a existência desta ordem. O universo, em vez de ser ordenado, poderia, pensa ele, ser completamente desordenado, isto é, poderia não obedecer a quaisquer leis. Mas não é isso que acontece. O universo obedece e sempre obedecerá a leis. Para Swinburne, não é a natureza que revela desígnio, mas as leis da natureza, ou melhor, o facto de o universo comportar-se de acordo com leis da natureza. Isto é, na opinião de Swinburne não são os acontecimentos do mundo (as regularidades de co-presença que têm de ser explicadas), mas as leis da natureza (as regularidades de sucessão) que carecem de explicação.

Mas como podem ser explicadas? Swinburne pensa que estas regularidades não podem ser explicadas pela ciência, porque a ciência pode apenas explicar "como" as coisas acontecem (neste caso, o "como" da ordem) e não "por que" acontecem; porque a "explicação científica da operação de uma lei natural consiste em mostrar que é uma consequência de algumas leis ainda mais fundamentais ― explicamos a operação das leis da queda de Galileu mostrando que são uma consequência, para as circunstâncias particulares da Terra, das leis do movimento de Newton..." (Think, Spring 2002, p. 50).

Para Swinburne, por conseguinte, a explicação da ordem temporal não pode estar em leis científicas, porque é precisamente as leis científicas que é preciso explicar e, em particular, as leis científicas, quaisquer que elas sejam, mais fundamentais de todas. Assim, ou aceitamos essas leis como um facto bruto ou temos de encontrar outro tipo de explicação.

Swinburne pensa que existe um outro tipo de explicação, aquilo a que chama uma «explicação pessoal». É este tipo de explicação que está presente sempre que justificamos qualquer acto que façamos. Mas, claro está, Swinburne não pensa que nós sejamos a explicação para a uniformidade da natureza, mas uma explicação pessoal do tipo que a nossa exemplifica. A explicação pessoal que Swinburne tem em mente é Deus. As razões que Swinburne apresenta para isto são as seguintes:

1) a simplicidade de uma hipótese torna-a mais provável.

2) o teísmo, como é a hipótese mais simples, é mais provável do que qualquer outra.

Swinburne pensa que o teísmo é uma hipótese muito simples porque

1) postula um Deus muito simples, um ser omnipotente, omnisciente, omnipresente, eterno, perfeitamente livre e bom;

2) reduz todas as formas de explicação a uma explicação pessoal. Isto leva a simplicidade do teísmo ainda mais longe, porque a) a explicação pára onde intuitivamente é mais natural parar, isto é, a escolha de um agente livre; b) tem como consequência uma visão do mundo muito simples.

3) devido à omnipotência e completa liberdade de Deus, tudo depende Dele e Ele não depende de nada, o que significa que a explicação acaba com Ele.

A tese de Swinburne tem, portanto, por base o critério de simplicidade. É mais plausível que, ao escolher entre explicações rivais, escolhamos algo com a simplicidade de Deus do que algo como o universo, com todas as suas características que exigem explicação. Esta última é menos plausível porque deixa por responder demasiadas questões cruciais. Por isso, mesmo que digamos que a probabilidade de ter sido um Deus a criar um universo como este não é muito elevada, o facto de este universo existir (isto é, um universo com estas características) torna mais provável que tenha sido Deus a criá-lo. A probabilidade deste mundo existir sem Deus é menor do que a de existir com Deus.



Críticas



A versão do argumento do desígnio de Swinburne tem sido muito discutida e criticada. Refiramos apenas dois aspectos. O primeiro é que ela exclui a possibilidade de uma série de divindades com poderes finitos. É difícil ver o que é que justifica isso. Talvez o facto de a hipótese teísta ser mais simples. Isto leva-nos à questão da simplicidade.

Será a hipótese teísta de facto a mais simples? É difícil perceber por que razão a hipótese de Deus é a mais simples. A razão evocada por Swinburne é que Deus é omnisciente, omnipotente, etc. Mas se nós, que não somos omniscientes, omnipotentes, etc., somos complexos, como se justifica que um ser que tem todas estas propriedades num grau máximo seja simples? Isso é logicamente possível, mas é contrário àquilo de que temos experiência. Não há dúvida que somos mais sábios, mais poderosos, etc., do que a maior parte dos animais. Mas somos também mais complexos. Portanto, a tese de que Deus é simultaneamente sumamente sábio, poderoso, etc., e sumamente simples é contrária à experiência e, por conseguinte, precisa ser justificada. Swinburne limita-se a apresentá-la como se fosse um facto. Não é.

Quer a hipótese teísta seja a mais simples quer não seja, a razão última para a sua adopção está na sua capacidade explicativa. É esta capacidade explicativa que pode tornar a hipótese de Deus plausível. Se a sua capacidade explicativa for fraca, não há qualquer razão para a sua adopção. Por outro lado, quanto mais elevada for a sua capacidade explicativa, mais plausível ela é. Swinburne pensa que a capacidade explicativa do teísmo é superior à das leis da natureza. Mas será que é?

Suponhamos que um objecto surgia no céu nocturno e que se pretendia explicar o que esse objecto é. Há duas hipóteses possíveis: uma explicação teísta (Deus) e uma explicação por intermédio de leis da natureza. Qual delas explica melhor o fenómeno, qual delas tem maior poder explicativo? A resposta é óbvia. A hipótese com maior poder explicativo é a das leis da natureza (e isto mesmo na hipótese de estas leis da natureza serem, neste caso, um facto bruto irredutível, isto é, não poderem ser explicadas por leis da natureza mais fundamentais). É hoje evidente, aliás, que a hipótese teísta não só não explicaria nada como seria um obstáculo à explicação do fenómeno. O mesmo parece ser verdade se em vez de ser necessário explicar um objecto celeste for necessário explicar as leis da natureza. Pode-se alegar talvez, usando a distinção de Swinburne, que as leis da natureza são de um tipo de ordem (temporal) diferente do tipo de ordem do objecto celeste (que é de um tipo de ordem espacial) e que, portanto, embora seja eventualmente verdade que as leis da natureza expliquem melhor o objecto celeste, não se segue daí que o mesmo se passe quando se trata de explicar as leis da natureza mais fundamentais, para as quais, diga-se de passagem, não pode haver qualquer explicação com base em leis da natureza. Note-se, no entanto, que aquilo que se pretende perceber com o exemplo é qual a capacidade explicativa da hipótese teísta e isso parece ser independente do tipo de ordem (temporal ou espacial) que pretende explicar. Deus parece ser assim um outro nome para a nossa ignorância, com o inconveniente adicional, se for aceite, de ser um obstáculo a qualquer investigação. Antigamente, era frequente atribuir-se a causa dos cometas a Deus e, durante séculos, os homens acreditaram nisso. Claro que, durante todo esse tempo, o nosso conhecimento dos cometas era nulo. Só começámos a conhecê-los ― a explicá-los ― quando passaram a ser considerados objectos celestes naturais, como os planetas e as estrelas, e a ser diligentemente observados e estudados. A "explicação" divina, neste caso, em vez de nos permitir explicar o fenómeno, foi, por muito tempo, um obstáculo ao seu conhecimento. E o mesmo se passa sempre que ela é evocada, seja para explicar um acontecimento no interior do universo ou o próprio universo. A história da ciência e do progresso do conhecimento é em grande parte a história da luta contra a explicação divina dos fenómenos naturais.[6]

Um outro exemplo pode tornar tudo isto mais perceptível. Imaginemos que ao entrarmos em casa constatávamos que ela estava inundada. Qual poderia ser a melhor explicação para isso? Note-se que se trata de uma situação em que o nosso raciocínio terá de ser abdutivo: a partir de um estado do mundo temos de determinar qual a melhor explicação para ele. Há várias hipóteses possíveis, desde as mais extravagantes às mais plausíveis. Imaginemos que, por hipótese, considerávamos que a explicação mais provável (a melhor explicação) fosse que uma torneira tivesse ficado aberta. O que poderá levar a que pensemos que esta é a melhor explicação? Eventualmente o conhecimento ― directo ou indirecto ― de acontecimentos semelhantes com causas semelhantes. Repare-se, no entanto, que não é possível justificar a hipótese teísta por intermédio de considerações deste tipo. Não há qualquer experiência anterior de acontecimentos similares que possam justificar a pretensão de que a explicação teísta é a melhor explicação. Tanto quanto sabemos, o mundo em que vivemos é único. A objecção de Hume tem também aqui razão de ser. Mas imaginemos que ignoramos completamente a existência de acontecimentos semelhantes com causas semelhantes e que tudo o que sabemos é que a hipótese da torneira aberta é a melhor explicação, isto é, a mais plausível, a causa mais provável da inundação. Que explica isso? Se não soubermos como, o processo pelo qual, a torneira aberta produz a inundação, a melhor explicação é puramente verbal e não explica nada.

Por outro lado, se, como no caso da hipótese teísta, a única razão para pensar que a melhor explicação (Deus) existe é o facto de ser a melhor explicação, então o conhecimento do processo pelo qual essa melhor explicação causa o efeito que supostamente explica é fundamental para estabelecer a sua existência.

Em resumo, sem a explicação do processo pelo qual a melhor explicação causa os efeitos que supostamente explica, a melhor explicação não explica nada; e só o conhecimento do processo pode justificar a crença na existência da melhor explicação.



As versões baseadas no ajuste perfeito e na complexidade irredutível



Nas últimas dezenas de anos, o nosso conhecimento do mundo físico e biológico progrediu novamente imenso e o argumento do desígnio voltou à ordem do dia. Começou-se a falar em princípio antrópico, ajuste perfeito e complexidade irredutível num contexto em que se discutia e tentava provar a existência de desígnio e de Deus. Não podemos, naturalmente, expor e discutir aqui em detalhe estas versões do argumento do desígnio. Iremos apenas apresentar as suas ideias fundamentais.



O ajuste perfeito e o argumento antrópico-teleológico



A ideia por detrás desta versão do argumento é simples. A investigação levada a cabo em astrofísica, cosmologia e biologia tem revelado a existência de um número significativo de constantes cósmicas, aparentemente arbitrárias (não podem ser determinadas a partir das teorias e têm, pelo menos por agora, de ser determinadas empiricamente), sem as quais a existência de um universo como o nosso seria impossível. O número destas constantes perfeitamente ajustadas à existência de um universo como o nosso, com galáxias, estrelas, planetas e vida como a nossa dentro dele, é impressionante. Além disso, uma ligeira diferença nos valores dessas constantes teria produzido um universo tão diferente do nosso que as galáxias, as estrelas, os planetas e a vida como conhecemos seria impossível. Por exemplo:

- se a carga eléctrica do electrão fosse ligeiramente diferente, as estrelas seriam incapazes de queimar hidrogénio e hélio ou não teriam explodido

- a possibilidade de formação aleatória das 2000 enzimas existentes é de 10 elevado 40000 (isto é, 10 seguido de 40000 zeros)

Explicar estes ajustes perfeitos como sendo o resultado de uma mera coincidência tem parecido a um grande número de cientistas e filósofos (o texto de Swinburne da revista Think que referimos é mais um caso) na última dezena de anos extremamente improvável e levou, em última instância, à ideia daquilo a que se pode chamar o argumento antrópico-teleológico. Este argumento baseia-se no princípio antrópico, que pode ter duas versões distintas: a fraca e a forte. A versão fraca limita-se a afirmar que nós, os observadores, estamos cá, porque o universo é de modo a permitir a existência de seres humanos. Esta observação é, obviamente, pacífica. Se o universo não fosse de modo a permitir a existência humana, não estaríamos cá. A versão forte faz uma afirmação muito mais controversa, a saber: nós, os observadores, estamos cá porque o universo foi feito de modo a permitir a existência de seres humanos. Assim, a existência dessas constantes é uma prova de desígnio e, por sua vez, a melhor explicação para este desígnio é um projectista cósmico que, consoante os autores, tem características mais ou menos cristãs.



Complexidade irredutível



Enquanto o ajuste perfeito chama a atenção para certas características absolutamente extraordinárias do micro e macrocosmos físico, a complexidade irredutível põe ênfase em certos aspectos da realidade biológica a nível molecular que, segundo os defensores do desígnio inteligente, apontam para um Deus (outra vez, mais ou menos cristão) como a melhor explicação.

O melhor exemplo desta nova defesa do argumento do desígnio e, ao mesmo tempo, de ataque ao darwinismo é a do bioquímico Michael Behe no livro Darwin Black Box. Behe define aí "complexidade irredutível" como sendo um "sistema único composto de várias partes bem ajustadas e em interacção, que contribuem para a função básica, em que a remoção de qualquer uma das partes faz com que o sistema deixe de funcionar" (p. 39).

Qualquer sistema biológico irredutivelmente complexo que exista ― se existir algum ― é, ao mesmo tempo, um desafio poderoso ao darwinismo (uma vez que a selecção natural só pode operar sobre sistemas que já existem e se um sistema não pode ser produzido gradualmente teve de surgir como uma unidade integrada, num golpe único, para que a selecção natural tivesse algo sobre que agir) e uma poderosa razão a favor do desígnio. Como exemplo de algo com complexidade irredutível, Behe apresenta as armadilhas para ratos. Segundo ele, as ratoeiras têm uma estrutura tal que, para funcionar, têm de ter todos os seus componentes presentes. A falta de um único componente fará com que não funcione.

Behe pensa que também há sistemas biológicos irredutivelmente complexos na natureza e aponta como exemplo o caso das bactérias que têm alguns componentes tão complexos e essenciais que se forem ligeiramente alterados já não funcionam. Estes sistemas não podem por isso ser explicados através da selecção e são uma prova da existência de desígnio.

Behe é secundado pelo matemático e teólogo William Bemski e por outros, que, motivados de forma nem sempre clara por razões de ordem religiosa, procuram mostrar que existe desígnio inteligente. Este movimento tem provocado reacções que oscilam entre levar a sério as dificuldades levantadas e tentar responder-lhes, como é o caso de Michael Ruse, até ao puro desprezo, com base na alegação de falta de excelência científica e filosófica e de utilização de técnicas desonestas para promover os seus pontos de vista.



Bibliografia



David Hume, Diálogos sobre a Religião Natural, Lisboa, Edições 70, 2005.

Elliott Sober, Core Questions of Philosophy, Upper Saddle River, Prentice Hall, 2001.

J. C. A. Gaskin, Hume's Philosophy of Religion, Londres, Macmillan, 1988.

J. J. C. Smart e J. J. Haldane, Atheism & Theism, Oxford, Blackwell, 1996.

J. L. Mackie, The Miracle of Theism, Oxford, Oxford University Press, 1982.

Michael Palmer, The Question of God, Londres, Routledge, 2001.

Michael Ruse, Darwin and Design, Cambridge, Harvard University Press, 2003.

Neil A. Manson, God and Design, Londres, Routledge, 2003.

Paul Davies, The Mind of God, Londres, Penguin Books, 1992.

Richard Dawkins, "The Improbability of God", in Free Inquiry, Volume 18, Number 3 [Trad. port: "A improbabilidade de Deus", in Filosofia e Educação (http://www.filedu.com/rdawkinsaimprobabilidadededeus.html)].

Richard Swinburne, Será que Deus existe?,Lisboa, Gradiva, 1998.

Richard Swinburne, The Existence of God, Oxford, Oxford University Press, 2004.

Richard Swinburne, "Arguments from Design", in Think, Spring 2002, pp. 49-54 [Trad. port: "Argumentos do desígnio", in Filosofia e Educação (http://www.filedu.com/rswinburneargumentosdodesignio.html)]

Robin Le Poidevin, Arguing for Atheism, Londres, Routledge, 1996.

Stephen W. Hawking, Breve História do Tempo, Lisboa, Gradiva, 1988.

William Paley, Natural Theology (http://www.hti.umich.edu/cgi/p/pd-modeng/pd-modeng-idx?type=header&id=PaleyNatur)].


[1] Texto da conferência proferida em 18 de Fevereiro de 2005 na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes de Portimão.

[2] É frequente pensar-se que a probabilidade de uma afirmação ser verdadeira depende do argumento que a suporta. Mas a verdade de uma afirmação, qualquer que ela seja, depende do estado de coisas no mundo e será ou não verdadeira consoante corresponda ou não a esse estado de coisas. A verdade ou falsidade de uma afirmação é, portanto, independente de argumentos. O que os argumentos podem fazer ― e os bons argumentos fazem-no ― é fornecer-nos razões para acreditarmos, no caso dos argumentos dedutivos, que a conclusão é verdadeira, e, no caso dos argumentos não dedutivos, que a probabilidade de que seja verdadeira é elevada. Mas, repetimos, os argumentos, mesmo que sejam bons, nunca tornam uma afirmação verdadeira.

[3] As versões modernas do argumento do desígnio que se baseiam na existência de um ajuste cósmico perfeito seguem Paley neste ponto de perto.

[4] Veja-se Michael Ruse, Darwin and Design, Cap. 1.

[5] Página 61.

[6] Stephen Hawking diz augures que, num encontro que teve com João Paulo II, este lhe disse que estava muito bem estudar o universo até ao Big Bang, mas não o próprio Big Bang porque este era um acto de criação divina.



Álvaro Nunes, 2006

7/27/2007

A OBRA DE DEUS• A OBRA DE DEUS

• A OBRA DE DEUS

Deus estava sentado, calado, sob a sombra de um pé de jabuticaba.
Lentamente, sem pecado, Deus erguia Suas mãos e então colhia uma ou outra fruta.
Saboreava Sua criação negra e adocicada.
Fechava Seus olhos e pensava...
Permitia-Se um sorriso piedoso.
Mantinha seu olhar complacente.

Foi então que, das nuvens, um de seus muitos arcanjos desceu e veio em sua direção.
Já ouviu a voz de um anjo?
É como o canto de mil baleias...
É como o pranto de todas as crianças do mundo...
É como o sussurro da brisa...
Ele tinha asas lindas... brancas, imaculadas.

Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

"- Senhor... visitei sua criação como pediu.
Fui a todos os cantos.
Estive no sul, no norte.
No leste e oeste.
Vi e fiz parte de todas as coisas.
Observei cada uma de suas crianças humanas e, por ter visto, vim até o Senhor, para tentar entender...
Por quê? Por que cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas um asa?
Nós anjos temos duas...
Podemos ir até o amor que o Senhor representa sempre que desejarmos.
Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos.
Mas os humanos, com sua única asa, não podem voar.
Não podem voar com apenas uma asa..."

Deus, na brandura dos gestos, respondeu pacientemente ao Seu anjo:
"- Sim, eu sei disso. Sei que fiz os humanos com apenas uma asa..."
Intrigado com a consciência absoluta de seu Senhor, o anjo queria entender e perguntou:

"- Mas por que o Senhor deu aos homens apenas uma asa quando são
necessárias duas asas para se poder voar, para poder ser livre?"

Conhecedor que era de todas as respostas, Deus não teve pressa para falar...
Comeu outra jabuticaba, obscura e suave.
Então respondeu:

"- Eles podem voar sim, meu anjo.
Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês, meus arcanjos....
Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas...
Embora livre, sempre estará sozinho.
Talvez da mesma maneira que Eu.
Mas os humanos... os humanos, com sua única asa, precisarão sempre dar as mãos para alguém a fim de terem suas duas asas.
Cada um deles tem, na verdade, um par de asas...
Uma outra asa em algum lugar do mundo que completa o par!
Assim eles aprenderão a respeitar-se, pois ao quebrar a única asa de outra pessoa podem estar acabando com as suas próprias chances de voar...
Assim, meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa...
Aprenderão que somente permitindo-se amar eles poderão voar...
Tocando a mão de outra pessoa em um abraço correto e afetuoso eles poderão encontrar a asa que lhes falta...
E poderão, finalmente, voar!
Somente através do amor irão chegar até onde estou...
assim como você Meu anjo.
E eles nunca... nunca estarão sozinhos quando forem voar."
Autor Desconhecido

7/02/2007

O BOSQUE

[ Otimismo ] [ Mensagem: O Bosque ]

O Bosque

Tempos atrás, eu era vizinho de um médico, cujo "hobby" era plantar árvores no enorme quintal de sua casa.

Às vezes, observava da minha janela o seu esforço para plantar árvores e mais árvores, todos os dias.


O que mais chamava a atenção, entretanto, era o fato de que ele jamais regava as mudas que plantava.

Passei a notar, depois de algum tempo, que suas árvores estavam demorando muito para crescer.

Certo dia, resolvi então aproximar-me do médico e perguntei se ele não tinha receio de que as árvores não crescessem, pois percebia que ele nunca as regava.

Foi quando, com um ar orgulhoso, ele me descreveu sua fantástica teoria.

Disse-me que, se regasse suas plantas, as raízes se acomodariam na superfície e ficariam sempre esperando pela água mais fácil, vinda de cima.

Como ele não as regava, as árvores demorariam mais para crescer, mas suas raízes tenderiam a migrar para o fundo, em busca da água e das várias fontes nutrientes encontradas nas camadas mais inferiores do solo.

Assim, segundo ele, as árvores teriam raízes profundas e seriam mais resistentes às intempéries.

Disse-me ainda, que freqüentemente dava uma palmadinha nas suas árvores, com um jornal enrolado, e que fazia isso para que se mantivessem sempre acordadas e atentas.

Essa foi a única conversa que tive com aquele meu vizinho.

Logo depois, fui morar em outro país, e nunca mais o encontrei.

Varios anos depois, ao retornar do exterior fui dar uma olhada na minha antiga residência.

Ao aproximar-me, notei um bosque que não havia antes.

Meu antigo vizinho, havia realizado seu sonho!

O curioso é que aquele era um dia de um vento muito forte e gelado, em que as árvores da rua estavam arqueadas, como se não estivessem resistindo ao rigor do inverno.

Entretanto, ao aproximar-me do quintal do médico, notei como estavam sólidas as suas árvores: praticamente não se moviam, resistindo implacavelmente àquela ventania toda.

Que efeito curioso, pensei eu...

As adversidades pela qual aquelas árvores tinham passado, levando palmadelas e tendo sido privadas de água, pareciam tê-las beneficiado de um modo que o conforto o tratamento mais fácil jamais conseguiriam.

Todas as noites, antes de ir me deitar, dou sempre uma olhada em meus filhos.

Debruço-me sobre suas camas e observo como têm crescido.

Freqüentemente, oro por eles.

Na maioria das vezes, peço para que suas vidas sejam fáceis:

"Meu Deus, livre meus filhos de todas as dificuldades e agressões desse mundo"...

Tenho pensado, entretanto, que é hora de alterar minhas orações.

Essa mudança tem a ver com o fato de que é inevitável que os ventos gelados e fortes nos atinjam e aos nossos filhos.

Sei que eles encontrarão inúmeros problemas e que, portanto, minhas orações para que as dificuldades não ocorram, têm sido ingênuas demais.

Sempre haverá uma tempestade, ocorrendo em algum lugar.

Portanto, pretendo mudar minhas orações.

Farei isso porque, quer nós queiramos ou não, a vida é não é muito fácil.

Ao contrário do que tenho feito, passarei a orar para que meus filhos cresçam com raízes profundas, de tal forma que possam retirar energia das melhores fontes, das mais divinas, que se encontram nos locais mais remotos.

Oramos demais para termos facilidades, mas na verdade o que precisamos fazer é pedir para desenvolver raízes fortes e profundas, de tal modo que quando as tempestades chegarem e os ventos gelados soprarem, resistiremos bravamente, ao invés de sermos subjugados e varridos para longe.

Autor desconhecido

Editado pelo professor Robério

6/27/2007

O PROFESSOR É SEMPRE CRITICADO

O professor é sempre criticado!
Sílvia Otília Zeferino





O Professor está sempre errado!

Quando...

É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, reclama de barriga cheia.
Fala em voz alta, vive gritando. *
Fala em tom normal, ninguém escuta.

Se ...
Brinca com a turma, metido a engraçado
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não sabe se impor.

A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.

Se...
Não falta ao colégio, é um Caxias.
Precisa faltar, é um turista.
Conversa com os outros professores,
está malhando os alunos.
Não conversa, é desligado.

Se ...

Dá muita matéria, não tem dó dos alunos.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.

Se ...
Fala corretamente, ninguém entende.
Fala a língua do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, debochado.
O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, deu mole.

É... O professor está sempre errado, mas se você
conseguiu entender até aqui, agradeça a ele!

Parabéns, Professor!
Muito obrigada pela luz da inteligência que você
incucou no meu cérebro.

COMO A ALFABETIZAÇÃO CARENCIAL AFETA A LEITURA

COMO A ALFABETIZAÇÃO CARENCIAL AFETA A LEITURA
Vicente Martins


-------------------------------------------------------------------

Comentarei um caso de dislexia, em sala de aula, relatado por uma mãe de uma criança de 9 anos. O objetivo deste artigo é apontar a alfabetização carencial como uma das causas mais comuns de dificuldade específica em leitura e que exige da escola e dos próprios pais uma intervenção eficiente na idade ideal de aquisição leitora por parte dos educandos.
A mãe me relata o seguinte: “Tenho notado que meu filho de 9 anos, atualmente, cursando a 3ª série, apresenta dificuldade de leitura e tende a trocar letras como "b e d" e se confunde com o som de sílabas como "se e es", o que, segundo seu artigo, enquadra-se em um caso de dislexia pedagógica”.
O primeiro ponto a considerar é a idade-série da criança e, para tanto, tomarei como escala de referência o atual continuum da faixa etária ideal do ensino fundamental, previsto na Lei de Diretrizes Nacionais da Educação Nacional(LDB) e legislação educacional correlata. Aos 6 anos, a Lei diz que o aluno deve ingressar no ano inicial do ensino fundamental e, aos 14 anos de idade, concluir esta etapa da educação básica. Aos 9 anos de idade, portanto, o aluno deve estar na terceira série ou no quarto ano do ensino fundamental. Levando-se em conta este parâmetro nacional, observamos que a criança acima referida está na faixa etária ideal, o que já descarta o atraso escolar.
Mesmo sem o atraso escolar ou distorção idade-série é importante considerar um segundo ponto na análise do caso. Refiro-me à aquisição e ao desenvolvimento das habilidades lingüísticas básicas e instrumentais do ensino como leitura, escrita, fala e ortografia, necessárias para o desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem, fins últimos do ensino fundamental.
A mãe afirma que a criança apresenta dificuldade em leitura, o que nos leva a supor dificuldade no reconhecimento das palavras. Em geral, o não reconhecimento da palavra, sobretudo na leitura em voz alta, decorre da falta de consciência fonológica, o que pode ser comprovado quando a mãe afirma haver, no déficit de leitura da criança, a troca ou permuta de fonemas /b/ e /d/, ambos oclusivos, e confusão na pronunciação de sílaba.
A troca de fonemas, no decorrer de leitura, decorre da falta de consciência fonológica. O déficit de consciência dos sons da fala afeta a leitura mas não necessariamente a fala, ou seja, uma criança pode não saber soletrar, decodificar, transformar letras em sons da fala, nomear as letras, separar ou apagar fonemas em uma palavra, déficits que tem implicações significativas na fluência leitora, mas nenhuma dessas deficiências poderá afetar a habilidade da fala.
A consciência fonológica deve ser trabalhada na fase de educação leitora, em que a criança aprende a ler com o objetivo de ler para aprender. Se a alfabetização é carencial, deficiente, a criança terá dificuldade de fazer o reconhecimento adequado das letras do alfabeto e das notações léxicas (til, cedilha, acentos agudo, grave etc) como representantes, no campo da escrita, dos sons da fala.
Sem o entendimento de que as letras representam os fonemas da língua materna (vogais, semivogais e consoantes) não há consciência fonológica, habilidade imprescindível à leitura acurada, uma consciência que, se apreendida, evitaria a leitura com hesitações na soletração ou dificuldade na transformação das palavras escrita em sons da fala.
A intuição da mãe de que a deficiência leitora da criança tem suas raízes na alfabetização deficitária pode ser observada quando diz que “o processo de alfabetização do meu filho foi deficiente, pois ele não chegou a cursar o pré-primário, passou do 2º período pré-escolar diretamente para a 1ª série do ensino fundamental. Embora ele não tenha dificuldade de compreensão e entendimento, apresenta uma leitura difícil e lenta, muitas vezes se perde durante a leitura de uma frase, como se apresentasse uma distração na hora de ler”.
Quanto a essa observação da mãe, importante é assinalar que a alfabetização em leitura não pode ser vista pela escola ou pelos pais apenas como um momento dentro da educação infantil, especialmente a pré-escola, que vai dos quatro aos cinco anos de idade. Também não menos importante afirmar que a educação infantil não é pré-requisito para o ingresso no ensino fundamental. A alfabetização em leitura pode começar na pré-escolar, mas seu lugar, enquanto ensino sistemático deve ser o primeiro ciclo do ensino fundamental, isto é, do 1º ao 5º ano, ou, como se classificava anteriormente, da 1ª série à 4ª série do ensino fundamental.
Aos 9 anos, se a criança comete erros fonológicos, como a troca de fonemas na leitura ou a troca de letras na escrita ortográfica, é um forte indício que a consciência fonológica não está sistematicamente trabalhada, o que poderá acarretar, no segundo ciclo do ensino fundamental, dificuldades progressivas na aprendizagem das práticas de leitura de textos e das práticas de produção de textos bem como das demais disciplinas do currículo escolar.
Publicado em 26/04/2007 15:20:00

--------------------------------------------------------------------------------

Vicente Martins - Cearense de Iguatu, é graduado e pós-graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará(UECE). Mestre em educação brasileira pela Universidade Federal do Ceará(UECE). Professor dos Cursos de Letras e Psicopedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA)
Fonte: http://www.psicopedagogia.com.br/opiniao/opiniao.asp?entrID=588